sábado, 19 de novembro de 2011

SE TODOS PUDESSEM VER

O reflexo no espelho
E alguns minutos a refletir:
Se todos pudessem me ver como eu me vejo,
Como só eu me vejo,
Como só eu me conheço,
Como só eu conheço o que esses meus olhos tristes querem dizer,
E o que querem esconder.

Se todos pudessem ver
deste meu pequeno ser, o âmago
O que no mais profundo abrigo
As palavras que queria e não falei
E as que não querendo pronunciei,
Os pensamentos vis que maquinei
E os desejos tantos que ainda lá dentro bem guardados calo.

E se todos pudessem ver,
Esse eu refletido no espelho
O qual dá-se a conhecer somente a mim.
Se todos o pudessem realmente ver,
O pudessem conhecer como só eu o conheço...
Quem mais estaria junto a mim?
Quem é que ficaria ao lado meu;
Eu, que estou frente ao espelho?

José Antonio Soares Ramalho

SE TIVÉSSEIS DO MAR...

Se tivésseis do mar,
Nos olhos, a cor
Quão belos olhos terias
De comtemplá-los, jamais deixaria.

Se tivésseis do mar,
No sorriso, a calmaria
Que cativo gesto me terias
Em desbravá-lo, não hesitaria.

Se tivésseis do mar,
Nos lábios, as tormentas
Quão delirantes beijos me darias
Avançaria rumo alto mar,
Não importa o que aconteceria.

Se tivésseis do mar,
Em vida, a real existência
Ah! Incessantemente,
Te amaria, te amaria...

José Antonio Soares Ramalho

domingo, 19 de setembro de 2010

SALGADAS ÁGUAS

Oceanos mil
Inundados,
Poluídos de sentimentos vis
Pobres corações amargurados.

Rios profundos,
Que brotam do cantinho
De uns olhos fundos
De quem não soube o que é carinho.

Águas salgadas;
Lágrimas amargas
Que rolam sobre a face,
Que não escolhem nem cor, nem classe.

Águas que refletem dor,
Rio incolor,
Quem sabe da cor da morte,
Dàqueles que tiveram a dura sorte,
De partir;
De deixar;
Deixar a vida,
Deixar amigos,
Deixar saudades,
Deixar sonhos.

Sonho; que até alguém pode ter,
De deixar, de partir,
Abandonar tudo aqui.
De esquecer a fome,
De toda a maldade do homem,
Da miséria de não ter um pão.
De ser pai; de ser mãe e estender para o filho vazias as mãos.
De não ter educação,
De não ter dignidade,
De viver à espera de promessas,
De ser criança e não ter infância,
De sofrer um ato promíscuo de um pai,
De ser abandonado pela mãe,
Sofrendo a violência de viver.
De sobreviver sem condições favoráveis,
Em condições detestáveis.

Vidas das quais deságuam oceanos;
Oceanos mil.
Oceanos de lágrimas,
Lágrimas de dor,
De vergonha,
De rancor,
De ódio e vingança.
Lágrimas de desesperança.
Desesperança no mundo,
No futuro,
Nos homens,
Na paz,
No amor,
Na vida...

Lágrimas que inundam,
Salgadas águas que sufocam;
Sufocam o que alguns ainda têm de bom.
Que mudam da cor da vida o tom.
Que ferem o bem,
O pouco que ainda se tem.

O munda esvai-se em lágrimas,
O sangue da alma, jorra,
Gota a gota,
Sobre o solo da vida.
Perfurando,
Destruindo planos e projetos,
Fazendo com que tantos
Vejam seus sonhos
Transformados em dejetos.

Talvez por isso existam os oceanos,
Talvez Deus, em sua oniciência
Entristecido com sua criação
Tenha deixado cair dos olhos,
Uma lágrima sua neste chão.

Oceanos mil,
Lágrimas que caem dos olhos seus.
Ninguém viu,
Mas, quem sabe, os vastos oceanos
Não são também
Uma lágrima que caiu
Dos olhos de Deus.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

sábado, 7 de agosto de 2010

A POESIA QUE SONHEI

Ah! Se possível fosse,
Tornaria a dormir
E me encantaria novamente
Com as belas palavras que em sonho escrevi.
Com aquele pedaço em branco de papel
Que privilegiadamente recebeu em sua superfície
A tinta da bendita caneta que eu esplendidamente manejava inspirado.

Ah! Se possível fosse lembrar-me,
Ainda que apenas uma única frase.
Mas, lembrasse.
Pois vedada me fora a memória,
E a poesia que sonhei, não mais lembrei.
E certamente jamais a lembrarei.
E ainda por certo,
Tão bela poesia doravante não escreverei.

Contudo,
Posso crer, agora
Que àquela, com a qual sonhei
Embora não me lembre dos versos seus
Me será por eterna inspiração.
E que em tudo que eu vier a escrever
Presente estará a intensa aspiração,
De algum dia,
Aproximar-me, por pouco que seja,
Da poesia que sonhei.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

CERRADO

Qual o teu motivo amigo?
Por que te deténs, te recusas, te negas a amar?
Se há neste sentimento tão grandiosa beleza,
Por que o temes tal maneira?

E te cerras,
E sozinho ficas,
E só desejas,
Desejas, e não amas.
E quem sabe, te amam e não te deixas ser amado.

Que medo é esse que tens?
Até quando estarás fechado, oprimido, enclausurado?
Onde foi?
Ou com quem foi que deixaste a chave
Que te pode abrir,
Coração cerrado.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

QUANDO CESSAR O PRANTO

Então poderei ver o sol,
Sua luz a clarear o dia,
Fazendo tudo parecer mais belo.

Então poderei sorrir de verdade,
Não sorrisos passageiros,
Advindos de piadas ou coisas tais.

Sorrir;
Por estar a alma a sorrir.

Como se houvesse cóssegas no coração,
Como se o riso fosse água,
Os olhos;
Sua nascente.
E os lábios;
Entre abertos num riso discreto,
Ou escancarados numa gargalhada,
Fosse onde tais águas correriam livremente belas,
Podendo qualquer um delas provar.

Então, quem sabe, esse serei eu;
Só depois,
Esse serei eu,
Depois que meu olhar deixe de ser triste,
Depois que o meu coração esteja livre de suas amarguras,
Depois que minha alma cesse o pranto que a tanto vem a chorar.

Então;
E só então,
Quando cessar o pranto,
Poderei ver o sol;
Poderei sorrir de verdade.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

ACORDADO

Por algum tempo,
Passei algum tempo,
Vendo passar o tempo,
A olhar, com um olhar perdido
O vago telhado sombrio
Da casa já adormecida no escuro.
E ali acordado
Bem mais que qualquer outra coisa
Como me senti frustrado,
Sonhei acordado com possibilidades mil,
Projetos, alternativas tantas para tantas coisas...
Até despertar do sonho,
Que sonhei de olhos abertos,
E perceber que sonhar assim
É torturar a si mesmo,
Por não poder viver quase coisa alguma do que se sonhou.
E acordado,
Lamentei não sonhar eternamente,
E viver neste sonho
Acordado pra sempre.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)