domingo, 19 de setembro de 2010

SALGADAS ÁGUAS

Oceanos mil
Inundados,
Poluídos de sentimentos vis
Pobres corações amargurados.

Rios profundos,
Que brotam do cantinho
De uns olhos fundos
De quem não soube o que é carinho.

Águas salgadas;
Lágrimas amargas
Que rolam sobre a face,
Que não escolhem nem cor, nem classe.

Águas que refletem dor,
Rio incolor,
Quem sabe da cor da morte,
Dàqueles que tiveram a dura sorte,
De partir;
De deixar;
Deixar a vida,
Deixar amigos,
Deixar saudades,
Deixar sonhos.

Sonho; que até alguém pode ter,
De deixar, de partir,
Abandonar tudo aqui.
De esquecer a fome,
De toda a maldade do homem,
Da miséria de não ter um pão.
De ser pai; de ser mãe e estender para o filho vazias as mãos.
De não ter educação,
De não ter dignidade,
De viver à espera de promessas,
De ser criança e não ter infância,
De sofrer um ato promíscuo de um pai,
De ser abandonado pela mãe,
Sofrendo a violência de viver.
De sobreviver sem condições favoráveis,
Em condições detestáveis.

Vidas das quais deságuam oceanos;
Oceanos mil.
Oceanos de lágrimas,
Lágrimas de dor,
De vergonha,
De rancor,
De ódio e vingança.
Lágrimas de desesperança.
Desesperança no mundo,
No futuro,
Nos homens,
Na paz,
No amor,
Na vida...

Lágrimas que inundam,
Salgadas águas que sufocam;
Sufocam o que alguns ainda têm de bom.
Que mudam da cor da vida o tom.
Que ferem o bem,
O pouco que ainda se tem.

O munda esvai-se em lágrimas,
O sangue da alma, jorra,
Gota a gota,
Sobre o solo da vida.
Perfurando,
Destruindo planos e projetos,
Fazendo com que tantos
Vejam seus sonhos
Transformados em dejetos.

Talvez por isso existam os oceanos,
Talvez Deus, em sua oniciência
Entristecido com sua criação
Tenha deixado cair dos olhos,
Uma lágrima sua neste chão.

Oceanos mil,
Lágrimas que caem dos olhos seus.
Ninguém viu,
Mas, quem sabe, os vastos oceanos
Não são também
Uma lágrima que caiu
Dos olhos de Deus.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

sábado, 7 de agosto de 2010

A POESIA QUE SONHEI

Ah! Se possível fosse,
Tornaria a dormir
E me encantaria novamente
Com as belas palavras que em sonho escrevi.
Com aquele pedaço em branco de papel
Que privilegiadamente recebeu em sua superfície
A tinta da bendita caneta que eu esplendidamente manejava inspirado.

Ah! Se possível fosse lembrar-me,
Ainda que apenas uma única frase.
Mas, lembrasse.
Pois vedada me fora a memória,
E a poesia que sonhei, não mais lembrei.
E certamente jamais a lembrarei.
E ainda por certo,
Tão bela poesia doravante não escreverei.

Contudo,
Posso crer, agora
Que àquela, com a qual sonhei
Embora não me lembre dos versos seus
Me será por eterna inspiração.
E que em tudo que eu vier a escrever
Presente estará a intensa aspiração,
De algum dia,
Aproximar-me, por pouco que seja,
Da poesia que sonhei.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

CERRADO

Qual o teu motivo amigo?
Por que te deténs, te recusas, te negas a amar?
Se há neste sentimento tão grandiosa beleza,
Por que o temes tal maneira?

E te cerras,
E sozinho ficas,
E só desejas,
Desejas, e não amas.
E quem sabe, te amam e não te deixas ser amado.

Que medo é esse que tens?
Até quando estarás fechado, oprimido, enclausurado?
Onde foi?
Ou com quem foi que deixaste a chave
Que te pode abrir,
Coração cerrado.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

QUANDO CESSAR O PRANTO

Então poderei ver o sol,
Sua luz a clarear o dia,
Fazendo tudo parecer mais belo.

Então poderei sorrir de verdade,
Não sorrisos passageiros,
Advindos de piadas ou coisas tais.

Sorrir;
Por estar a alma a sorrir.

Como se houvesse cóssegas no coração,
Como se o riso fosse água,
Os olhos;
Sua nascente.
E os lábios;
Entre abertos num riso discreto,
Ou escancarados numa gargalhada,
Fosse onde tais águas correriam livremente belas,
Podendo qualquer um delas provar.

Então, quem sabe, esse serei eu;
Só depois,
Esse serei eu,
Depois que meu olhar deixe de ser triste,
Depois que o meu coração esteja livre de suas amarguras,
Depois que minha alma cesse o pranto que a tanto vem a chorar.

Então;
E só então,
Quando cessar o pranto,
Poderei ver o sol;
Poderei sorrir de verdade.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

ACORDADO

Por algum tempo,
Passei algum tempo,
Vendo passar o tempo,
A olhar, com um olhar perdido
O vago telhado sombrio
Da casa já adormecida no escuro.
E ali acordado
Bem mais que qualquer outra coisa
Como me senti frustrado,
Sonhei acordado com possibilidades mil,
Projetos, alternativas tantas para tantas coisas...
Até despertar do sonho,
Que sonhei de olhos abertos,
E perceber que sonhar assim
É torturar a si mesmo,
Por não poder viver quase coisa alguma do que se sonhou.
E acordado,
Lamentei não sonhar eternamente,
E viver neste sonho
Acordado pra sempre.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

CINZAS

Não foi sempre assim,
Não houve sempre tanta tristeza dentro de mim.
Porém, de tudo que já se passou
Nada mais que cinzas restou.

Hoje, sobrou-me apenas o olhar triste e distante,
O mendigar de alguma alegria,
E umas migalhas de sorrisos.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)

À ALGUÈM IMPORTANTE

Se te tenho, prometo cuidar-te bem.
Se ainda te busco, sei que um dia vens.
À alguém da importância que tens,
Grito ansioso: Vem depressa, vem!

Consolo-me com tua presença, se te tenho.
Lamento tua ausência, se ainda te busco.
Sofro a tua procura, tateando nesse escuro,
Para sarar-me, é que a tanto buscar-te venho.

Para sarar minha solidão,
Tirar-me de solitária prisão,
Preencher esse espaço vazio que abriga meu coração.

Tu, que me és importante,
Ainda que de mim estejais distante,
Receba este soneto como presente.

À alguém importante.

José Antonio S. Ramalho (Tonni)